Cinzas Do Norte

Cinzas Do Norte

Milton Hatoum

Language:

Pages: 312

ISBN: 8535906851

Format: PDF / Kindle (mobi) / ePub


'Cinzas do Norte', terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 50 e 60, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano. No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Editora Companhia das Letras Edição: 2005 Páginas: 311

Artikelnummer LBr65
ISBN 9788535906851
EUR 29,70
Versandgewicht 0,40 kg
Hersteller Editora Companhia das Letras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sabão. Meu cunhado deixava; só reclamava quando eu e tua mãe, depois das convulsões de amor, emergíamos no convés com o rosto e os braços empoados de farinha. Ramira ficava sozinha nos fundos da chácara do Morro da Catita, costurando, remoendo; só faltava queimar a língua com agulhas em brasa. Jonas suportava esses ataques de ciúme; trazia carne e peixe fresco pra casa e dava cortes de tecido pra Ramira. Raimunda lhe dizia: "Mana, arruma um namorado: tem tanto homem dormindo sozinho na cidade".

uma bolsa preta; não entrou na igreja, apenas se benzeu. Nunca a vi tão resoluta, parecia que ia realizar a grande missão de sua vida. Deixara vestígios da alegria em casa: a música no rádio, o almoço preparado de manhãzinha e um bilhete afetuoso, \ 172 escrito com caligrafia torta e sem pontuação: "Sobrinho Hjuerido quando eu voltar vamos fazer só nós dois uma festa no almoço". A euforia a fizera esquecer o sonho agourento com o irmão? Ouvi o sino da igreja bater onze vezes. Estava enfastiado

amigo de Mundo? Talvez o único. O outro amigo era um reles artista. Quem era esse outro amigo? 35 Ele deu um soquinho na perna e suspirou: "Ainda não conheces? Um vagabundo. Um pintor de trambolhos sem pé nem cabeça. Também faz esculturas... coisas tortas, tudo porcaria! Mundo vive enfiado na casa desse aproveitador, às vezes dorme por lá. Minha mulher pensa que o nosso filho vai ser um gênio". Falava com o dedo apontado para a minha cabeça, como se o filho estivesse no meu lugar. A camisa

avisar, não viajei pelo interior até Belém: vim pra Manaus, me escondi num beco perto do Seringal Mirim e pedi a um barqueiro que desse um recado a Naiá, uma senha que Alicia conhecia. O mesmo barqueiro levava uma mensagem a Ramira ("Ranulfo está viajando pelo Médio Amazonas, mas não vai demorar"), e em novembro de 1955 apareci no Morro e inventei pra Ramira uma história que depois contei em várias transmissões do programa Meia-Noite Nós Dois, e em cada programa inventava a torto e a direito uma

Isso me intrigava, e, quando lhe perguntei por que ficava encorujada, ela respondeu: "Por segurança. Todo mundo sai à noite pra farrear, e eu quero ser a única a sair só de dia". Às vezes eu recebia um recado urgente de Naiá e corria para o quartinho da rua Tamandaré, mas a maioria das fugas era planejada. De modo que, nas terças ou quintas da primeira e última semana do mês, Macau levava tua mãe ao salão de beleza; depois ela pegava outro táxi, dirigido pelo meu amigo Corel, e descia na calçada

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